top of page

LAGARTIXA-DE-PAREDE: VIDA E OBRA

Texto: Débora Cristina B. M. de O. Santos


A lagartixa-de-parede (Hemidactylus mabouia Moreau de Jonnès, 1818), também conhecida como osga, taruíra e víbora, é bem conhecida no Brasil. Comum em nossas residências, andando pelas paredes e teto, enquanto alguns a acham fofa, outros têm pavor. Existe o mito de que ela causa cobreiro, mas já elucidamos esse assunto aqui. Vem conhecer mais um pouco desta espécie com a gente.

Figura 1. Hemidactylus mabouia. Localidade: Parque Estadual da Fonte Grande (2004). Autoria: Giuliano (adaptada).


Hemidactylus mabouia é um lagarto de pequeno porte, com hábitos noturnos. Seu corpo é achatado dorsoventralmente e sua coloração pode ser bem clara, quase branca, indo até o marrom escuro. De fato, esta espécie tem a capacidade de alterar sua coloração. Como outros geconídeos, esta espécie não possui pálpebras. Sim, tente se lembrar, você já viu alguma delas piscar?


Quanto à dieta, H. mabouia é uma predadora de espreita (senta-e-espera), generalista e oportunista, que se alimenta principalmente de artrópodes. Em ambientes antrópicos H. mabouia tem potencial para ser um controle biológico, predando inclusive espécies de aranha de importância médica, como a aranha-marrom (Loxosceles spp.). Esta espécie apresenta canibalismo, no qual os adultos se alimentam dos juvenis. Devido ao canibalismo é possível que os juvenis evitem os adultos, causando uma diferença no uso do hábitat por classe de idade.


Esta espécie é gonocorística, possui fecundação interna e reprodução contínua, isto é, se reproduz ao longo de todo o ano. As fêmeas de H. mabouia depositam apenas dois ovos por vez, muitas vezes em ninhos comunitários. Uma característica interessante desta espécie é a estocagem de esperma. As fêmeas estocam o esperma dos machos em criptas nas tubas uterinas. Os espermatozoides ali presentes podem ser utilizados em momentos posteriores, podendo ocorrer uma nova fecundação sem a necessidade de outra cópula. O que pode ser útil em populações pequenas, onde o encontro com machos seja escasso.


Outra curiosidade desta espécie é a sua capacidade de vocalizar, ou seja emitir sons. Em geral, os machos vocalizam em interações com conspecíficos, principalmente durante o comportamento de corte. Apesar de machos vocalizarem com maior frequência, ambos os sexos emitem sons quando manipulados.


Apesar de comum no nosso cotidiano, H. mabouia é uma espécie exótica no Brasil e em todo o continente americano. Esta espécie é nativa da África e chegou às Américas provavelmente por meio dos navios negreiros. É uma espécie sinantrópica, sendo comum encontrá-la em construções humanas. Entretanto, H. mabouia tem expandido sua área de ocorrência, sendo encontrada cada vez mais em ambientes naturais.


Espécies invasoras são uma das maiores causas de perda de espécies. Devemos lembrar que uma espécie exótica não necessariamente é uma espécie invasora. Já tratamos das diferenças entre estes termos aqui. Alguns estudos já demonstraram que H. mabouia pode excluir outras espécies de lagartos simpátricos. Além disso, esta espécie pode predar juvenis de outras espécies de lagartos. Entretanto, ainda não existem estudos que mostrem o real impacto de H. mabouia em espécies nativas, seja em ambientes antrópicos, seja em ambientes naturais.


Referências

CASTRO, T. M. de; SILVA-SOARES, T. Répteis da restinga do Parque Estadual Paulo César Vinha, Guarapari, Espírito Santo, Sudeste do Brasil. Cachoeiro de Itapemirim: Editora Centro Universitário São Camilo. 2016.

GONZALEZ, R. C. et al. Lista dos nomes populares dos répteis no Brasil: Primeira versão. Herpetologia Brasileira, v. 9, n. 2, p. 121-214. 2020.

HOWARD, K. G.; PARMERLEE JR., J. S.; POWELL, R. Natural history of the edificarian geckos Hemidactylus mabouia, Thecadactylus rapicauda, and Sphaerodactylus sputator on Anguilla. Caribbean Journal of Science, v. 37, n. 3-4, p. 285-288. 2001.

HUGHES, D. F.; MESHAKA, W. E.; VAN BUURT, G. The superior colonizing gecko Hemidactylus mabouia on Curaçao: conservation implications for the native gecko Phyllodactylus martini. Journal of Herpetology, v. 49, n. 1, p. 60-63. 2015.

ITURRIAGA, M.; MARRERO, R. Feeding ecology of the Tropical House Gecko Hemidactylus mabouia (Sauria: Gekkonidae) during the dry season in Havana, Cuba. Herpetology Notes, v. 6, p. 11-17. 2013.

NOGUEIRA, K. O. P. C. et al. Sperm storage in Hemidactylus mabouia: Morphological and ultrastructural aspects of a reproductive strategy. Animal Reproduction Science, v. 159, p. 212-216. 2015.

RAMIRES, E. N.; FRAGUAS, G. M. 2004. Tropical house gecko (Hemidactylus mabouia) predation on brown spiders (Loxosceles intermedia). Journal of Venomous and Toxins Including Tropical Disease, v. 10, n. 2, p. 185-190.

REGALADO, R. Roles of visual, acoustic, and chemical signals in social interactions of the Tropical House Gecko (Hemidactylus mabouia). Caribbean Journal of Science, v. 39, n. 3, p. 307-320. 2003.

ROCHA, C. F. D.; ANJOS, L. A.; BERGALLO, H. G. Conquering Brazil: the invasion by the exotic gekkonid lizard Hemidactylus mabouia (Squamata) in Brazilian natural environments. Zoologia, v. 28, n. 6, p. 747-754. 2011.

RODRÍGUEZ-CABRERA, T. M.; ESPÍN, R. M.; TORRES, J. Predation attempt by a Tropical House Gecko, Hemidactylus mabouia (Gekkonidae), on a Cuban Blue Anole, Anolis allisoni (Dactyloidae), south-central Cuba. Reptiles & Amphibians, v. 29, n. 1, p. 159-161. 2002.

SHORT, K. H.; PETREN, K. Multimodal dispersal during the range expansion of the tropical house gecko Hemidactylus mabouia. Ecology and Evolution, v. 1, n. 2, p.181-190. 2011.

SOUSA, P. A. G. Communal nests of Hemidactylus mabouia (Moreau de Jonnès,1818) (Squamata: Gekkonidae) in a remnant of Atlantic Forest in northeastern Brazil. Biotemas, v. 23, n. 3, p. 231-234. 2010.

730 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page