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TIRANDO FÉRIAS DO CALOR

Texto: Bárbara Santos Teixeira Costa


O calor pode ser muito agradável para nós humanos, significando mar, piscina e férias. Porém, o calor pode não ser tão agradável para diversos animais, principalmente durante o período de seca em biomas áridos. Já ouvimos falar muito sobre a hibernação dos ursos durante a nossa vida, em que eles estocam energia por um determinado período de tempo a fim de “dormir” durante uma época desfavorável para eles, o inverno. Outros animais utilizam uma estratégia parecida e muito interessante durante os períodos de seca, chamada estivação. Você já ouviu esta palavra?


Na estivação os animais “dormem” durante o período de seca. Eles geralmente se enterram no solo para realizar o sono de estivação e, quando caem as primeiras chuvas da primavera, os animais acordam e estão prontos para um período reprodutivo. Durante o sono de estivação, as taxas metabólicas dos animais diminuem drasticamente, como também a taxa de oxigênio e as suas demandas calóricas. Você sabia que alguns anuros (sapos, rãs e pererecas) são capazes de estivar? Sabia ainda que um anuro que habita a fauna capixaba realiza estivação? Não?! Então venha com a gente e descubra!


Figura 1: O sapo-bode Dermatonotus muelleri é capaz de realizar o sono de estivação. Autoria: Bruno Corrêa (Instagram: @bruno_agustus).


As espécies de anuros que realizam estivação possuem diferentes adaptações morfológicas ou estratégias para conseguir manter a umidade. Existem três estratégias mais utilizadas pelos anuros (Pereira, 2009) que são: formar um casulo com várias camadas de células da epiderme, a fim de diminuir a evaporação da água; aumentar o índice de osmolaridade interna, que pode ser através da concentração de uréia; selecionar e um micro-habitat que seja menos propício à perda d’água, pois diversos fatores podem interferir nessa perda de água, como a granulosidade da areia, proximidade ou não com arbustos e entre outros fatores.O Dermatonotus muelleri (Boettger, 1885), conhecido como sapo-bode, é um anuro que realiza esse processo de estivação e pode ser encontrado em solos capixabas. O gênero Dermatonotus é um gênero monotípico (ou seja, apresenta apenas uma espécie) e é pertencente a família Microhylidae. Esta espécie também ocorre em diversos biomas como a Caatinga, Pantanal, Chaco e Cerrado, se alimentando principalmente de cupins e possuindo hábitos noturnos (Carrillo et al., 2020).


Um fato muito interessante é que o D. muelleri pode dobrar seu pescoço em um ângulo de 90 graus ao enterrá-lo, sendo uma das duas espécies de anuros capazes de fazer isso. De acordo com Nomura et al. (2009), enterrar a cabeça é o primeiro de três estágios de D. muelleri para realizar a estivação, seguido por enterrar seu corpo. Por fim, ele constrói uma câmara subterrânea para si, a fim de se proteger da perda d’água durante a estivação.


Quando a estação seca termina e a estação chuvosa começa, os indivíduos de Dermatonotus muelleri emergem do solo com uma reprodução explosiva (Nomura e Rossa-Feres, 2011), para aproveitarem ao máximo a duração da estação chuvosa. Desta forma, a espécie pode prosperar e deixar mais indivíduos no mundo.


E você, sabia de tudo isso? Assim como o Dermatonotus muelleri, você também foge do calor?


Referências


CARRILLO, J. F. C. et al. Diet of Dermatonotus muelleri (Anura: Microhylidae) in a semideciduous forest in western Brazil. Cuadernos de Herpetología, v. 34, n. 2, p.251-255. 2020.


NOMURA, F.; ROSSA-FERES, D. C. The frog Dermatonotus muelleri (Boettger 1885)(Anura Microhylidae) shifts its search tactics in response to two different prey distributions. Ethology Ecology & Evolution, v. 23, n. 4, p. 318-328. 2011.


NOMURA, F.; ROSSA-FERES, D. C.; LANGEANI, F. Burrowing behavior of Dermatonotus muelleri (Anura, Microhylidae) with reference to the origin of the burrowing behavior of Anura. Journal of Ethology, v. 27, n. 1, p. 195. 2009.


PEREIRA, I. C. Aspectos fisiológicos e ecológicos da estivação em Pleurodema diplolistris (Leiuperidae/Anura). Dissertação (Mestrado em Fisiologia) - Universidade de São Paulo, Instituto de Biociências. p. 70. 2009.

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