SISTEMÁTICA NA PRÁTICA!

Atualizado: Mai 18


Texto: Bruno Corrêa


Como nasce uma filogenia?

Atualmente existem mais de 20 definições sobre o que é uma espécie (Gittleman, 2019). Elas seguem as mais diferentes linhas de pensamento, porém apresentam uma característica em comum; sua origem é o resultado da evolução de linhagens diferentes em metapopulações¹. Entretanto, as discordâncias entre os conceitos propostos por diferentes estudos se dão em como a história evolutiva dessas linhagens foi sendo construída e, por isso temos definições ecológicas, genéticas, evolutivas, moleculares, biogeográficas, etc. (Queiroz, 2007).


Mesmo com tantos conceitos, a taxonomia está trabalhando de forma colaborativa e metodologias usando dados provenientes de mais de uma área do saber são empregados. Essa nova ferramenta se chama Taxonomia Integrativa, que une a morfologia, genética, ecologia dentre outras áreas das ciências biológicas (Pires & Marinon, 2010). Vários grupos animais e vegetais são usados como estudos de caso para entendermos melhor como a evolução das espécies, de uma froma geral, se deu e se dá ainda hoje.


Um exemplo recente que utilizou não só dados morfológicos, mas também dados genéticos e ecológicos foi a reestruturação do grupo das pererecas da tribo Lophyohylini (Fig. 1), onde foram analisados 85 espécies dentro desse grupo, utilizando cinco sequências mitocondriais, seis sequências nucleares do DNA, aspectos ecológicos (principalmente ao modo reprodutivo), além das estruturas ósseas mencionadas anteriormente, visto que são anuros com uma morfologia cranial única (Blotto et al. 2020).


Figura 1: Exemplos de espécies da tribo Lophyohylini. A) Corythomantis greeningi; B) Nyctimantis brunoi. Fotos: Welligton Coelho e Leticia Watanabe respectivamente.



Os principais resultados filogenéticos desse estudo foram (Fig. 2):


I. A tribo Lophyohylini é monofilética e é o grupo-irmão do clado Pseudini + Hylini;


II. Os clados sugeridos com forte suporte foram: Nyctimantis, Osteopilus, Phyllodytes, Tepuihyla + Dryaderces + Osteocephalus, e Trachycephalus;


III. Os gêneros Aparasphenodon, Corythomantis e Trachycephalus não são monofiléticos, pois as apomorfias morfológicas (ex: osteologia das espécies) que foram sugeridas anteriormente não foram corroboradas com esse novo estudo. Como resultado dessa falta de suporte, os gêneros Aparasphenodon e Corythomantis foram sinonimizados com Nyctimantis;


IV. Um clado bem definido foi com Trachycephalus atlas, Tr. nigromaculatus, e Tr. mambaiensis. Apesar dessas espécies apresentarem diferenças morfológicas no crânio e em seus girinos, as análises genéticas demonstram uma proximidade muito grande entre elas. Elas juntas ocorrem em uma área muito ampla e outros estudos devem se debruçar melhor em compreender como são as interações ecológicas e populacionais entre eles;


V. Trachycephalus dibernardoi e Tr. imitatrix são espécies irmãs como demonstrado em análises genéticas, porém a ocorrência delas ainda pode haver muitas lacunas, visto que Tr. dibernardoi ocorre na Argentina, sudoeste do Brasil, e Paraguai, enquanto a espécie Tr. imitatrix possui ocorrência no sudeste brasileiro, portanto, são necessários mais estudos sobre a distribuição dessas espécies;


VI. O monofiletismo do clado composto por Itapotihyla + Phytotriades foi corroborada com pouco suporte e mais estudos são importantes em relação ao estado desses gêneros;


VII. A espécie Corythomantis galeata caiu dentro de Nyctimantis, isso significa que o gênero Corythomantis é monotípico possuindo apenas Corythomantis greeningi;


VIII. O gênero Phyllodytes é polifilético e mais estudos sobre a relação dele com o gênero Phytotriades, principalmente pela proximidade ecológica, apesar de que seus girinos possuem morfologias distintas;


IX. O monofiletismo para o gênero Osteopilus foi apenas para dois grupos: O. crucialis + O. ocellatus e O. marianae + O. wilder. Apesar disso mais um grupo pouco suportado pelas análises foi O. crucialis, O. marianae, O. ocellatus e O. wilderi, além de compartilharem sinapormorfias reprodutivas e similaridades em morfologias nos seus estágios larvais;


X. Além dos resultados em mudanças taxonômicas pelas relações genéticas e morfológicas, o estudo também apresentou um levantamento das origens dos tipos de ossificação (exostoses, “casquing” e co-ossificação) dentro desse grupo, estratégias reprodutivas e o uso de venenos para se defenderem, já que é sabido que algumas espécies de pererecas de capacete serem peçonhentas e os “milk frogs” são os anuros representados por espécies do gênero Trachycephalus famosos por terem excreções de veneno pela derme que causam injurias para predadores.


Figura 2: Árvore filogenética das espécies da tribo Lophyohylini. Fonte: Blotto et al. 2020.


Esse estudo é um exemplo de como a sistemática está ligada com vários outros aspectos da biologia das espécies e que mais estudos são necessários para definir melhor as relações filogenéticas entre as espécies dessa tribo.


Exemplos de mudanças de nome

Para quem está há mais tempo na herpetologia é comum se surpreender com algumas mudanças, um exemplo é perguntar para o seu orientador o que ele achava da espécie Bufo paracnemis e ver o brilho no olhar de quem viveu essa época! Algumas mudanças foram icônicas como a separação do gênero Hyla para Hypsiboas, Dendropsophus, Bokermannohyla (Faivovich et al. 2005) ou um mais recente que foi a reestruturação das pererecas-macaco, as famosas Phyllomedusas, em que apenas as espécies do norte permaneceram com esse nome e as demais foram trocadas por Pithecopus (Duellman et al. 2016). Há quem goste dos nomes ou quem não aceite a mudança, mas elas sempre vão ocorrer, pois com mais variáveis sendo incorporadas às análises filogenéticas, com maior precisão as relações de parentesco vão se estabelecendo.


Mas não pensem que isso é exclusivo dos anuros! Todos os grupos de seres vivos passam por isso. Alguns são mais estáveis e outros trocam de nome mais frequentemente, mas isso quer dizer que a filogenia está errada ou o taxonomista é ruim? Não! Apenas significa que as hipóteses filogenéticas das espécies sugeridas anteriormente não eram tão bem suportadas pelas novas análises ou ferramentas metodológicas, e que a reorganização das espécies se faz necessária.


E vocês, possuem algum nome científico que está no seu coração e mudou? Comente nas nossas redes sociais!


¹ Conjunto de sub-populações isoladas espacialmente em fragmentos de habitat e unidas funcionalmente por fluxos biológicos.


Referências

Blotto, B. L., Lyra, M. L., Cardoso, M. C., Rodrigues, M. T., Dias, I. R., Marciano‐Jr, E., ... & Lantyer‐Silva, A. S. (2020). The phylogeny of the Casque‐headed Treefrogs (Hylidae: Hylinae: Lophyohylini). Cladistics.

Duellman, W. E., Marion, A. B., & Hedges, S. B. (2016). Phylogenetics, classification, and biogeography of the treefrogs (Amphibia: Anura: Arboranae). Zootaxa, 4104(1), 1-109.

Faivovich, J., C. F. B. Haddad, P. C. de A. Garcia, D. R. Frost, J. A. Campbell, and W. C. Wheeler. (2005). Systematic review of the frog family Hylidae, with special reference to Hylinae: a phylogenetic analysis and taxonomic revision. Bulletin of the American Museum of Natural History 294: 1–240

Gittleman, J. L. (2019). Species. Encyclopaedia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/science/species-taxon Acesso em 04 de maio de 2020.

Pires, A. C., & Marinoni, L. (2010). DNA barcoding and traditional taxonomy unified through Integrative Taxonomy: a view that challenges the debate questioning both methodologies. Biota Neotropica, 10(2), 339-346.

Queiroz, K. (2007). Species concepts and species delimitation. Systematic biology, 56(6), 879-886.

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