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SACO VOCAL E AMBIENTE REPRODUTIVO

Texto: Katarine N. Norbertino



No contexto da bioacústica, o aparato morfológico dos anuros pode influenciar tanto a produção quanto a amplificação das ondas sonoras. Se você já viu algum sapo vocalizando, certamente já notou uma estrutura inflada próxima à garganta desse “cantor”. Essa estrutura que pode parecer uma “bola de chiclete” trata-se do saco vocal, sendo, por vezes, responsável por proporcionar que o som alcance maiores distâncias e chegue aos indivíduos que se encontram mais afastados (podendo ser fêmeas em casos de canto de anúncio, ou machos em casos de canto territorial).


E sabe o que é mais incrível?! A morfologia dessa estrutura é extremamente diversificada (Imagem 1) nos anfíbios anuros, os quais podem apresentar um saco vocal único (subgular mediano ou subgular bilobado), ou duplo lateralmente pareado. A morfologia do saco varia não só entre famílias, mas também entre espécies de mesmo gênero.


Imagem 1. Tipos de sacos vocais em anuros: a) subgular mediano em Physalaeumus nattereri; b) subgular bilobado em Pseudis minuta. Fonte: Thiago Silva-Soares.



As “pererecas-capacetes” (Imagem 2) pertencem à tribo Lophyohylini, compreendendo 90 espécies distribuídas em 10 gêneros: Corythomantis, Dryaderces, Itapotihyla, Nyctimantis, Osteocephalus, Osteopilus, Phyllodytes, Phytotriades, Tepuihyla e Trachycephalus. O grupo carrega esse nome popular emblemático em virtude da forte ossificação do crânio presente em muitas das espécies do grupo. Outro aspecto morfológico que intriga, é a diversidade de sacos vocais que a tribo apresenta.


Imagem 2. Representantes da tribo Lophyohylini: a) Nyctimantis brunoi empoleirado em galho; b) Trachycephalus sp. sob o solo; c) Trachycephalus atlas empoleirado em galho. Fonte: A e B, Thiago Silva-Soares; C, Katarine N. Norbertino.



Moura e colaboradores (2021) buscaram caracterizar se haveria alguma relação dos sacos vocais com o ambiente ocupado pelas diferentes espécies de Lophyohylini. Os autores avaliaram diferentes caracteres da morfologia interna do saco vocal, traçando como essa estrutura teria evoluído. Dessa maneira, descobriram uma forte relação entre o ambiente e a tendência à redução do tamanho dessa estrutura. De tal forma, puderam verificar que, apesar de algumas espécies apresentarem sacos vocais com exuberantes projeções laterais, em espécies que habitam bromélias houve uma redução do mesmo, possivelmente em virtude da limitação do espaço confinado. Contudo, outros sítios reprodutivos podem exercer pressão nos sacos vocais, como ocorre em algumas espécies do grupo que vocalizam em cavidades de rochas ou troncos de árvores.


Logo, torna-se evidente que quando uma estrutura evolui, há diferentes fatores pressionando esse processo. E, nesse contexto, o saco vocal, cuja função é muito mais associada ao canto, pôde ser moldado ao longo da história evolutiva por fatores distintos daqueles meramente ecológicos.



REFERÊNCIAS


BLOTTO, B. L. et al. The phylogeny of the casque‐headed treefrogs (Hylidae: Hylinae: Lophyohylini). Cladistics, v. 37, n. 1, p. 36-72, 2021.


ELIAS‐COSTA, A. J. et al. The vocal sac of Hylodidae (Amphibia, Anura): phylogenetic and functional implications of a unique morphology. Journal of morphology, v. 278, n. 11, p. 1506-1516, 2017.


FROST, D. R. Amphibian Species of the World: an Online Reference. Version 6.0 (29, set. de 2022). American Museum of Natural History, New York, USA, 2021. Disponível em: http://research.amnh.org/herpetology/amphibia/index.html. Acesso em: 29 set. 2022.


MOURA, P. H. A. G. et al. Diversity and evolution of the extraordinary vocal sacs of casque-headed treefrogs (Anura: Hylidae). Biological Journal of the Linnean Society, v. 134, n. 2, p. 423-442, 2021.


WELLS, K. D. The ecology and behavior of amphibians. The University of Chicago Press, Ltd., London. 1160 p. 2007.



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