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PEIXE QUE IMITA COBRA?


Texto: Bárbara Santos Teixeira Costa


Já ouviu falar de um peixe que mimetiza uma cobra? Caso não saiba, venha conhecer o incrível mimetismo do peixe conhecido como “cobra-enguia-arlequim”!


Figura 1: Peixe Myrichthys colubrinus, na península de North West Cape, Austrália, 2019. Fonte: Bray, 2022.


O peixe Myrichthys colubrinus (Boddaert, 1781), conhecido como cobra-enguia-arlequim (em tradução livre do inglês “harlequin snake eel”), é da ordem dos peixes Anguilliformes. Essa ordem possui peixes com corpo cilíndrico, na qual também estão as conhecidas moreias e enguias (Fishbase, 2023). Voltando à espécie, a cobra-enguia encontra-se numa porção do oceano denominada de Indo-pacífico (Figura 2), que é uma região na qual compreende o Oceano Índico e a porção tropical e ocidental do Oceano Pacífico, à leste da Indonésia e Austrália.



Figura 2: Zona oceânica biogeográfica do Indo-pacífico. Fonte: Gaba, 2008.


O peixe M. colubrinus, apesar de sua coloração chamativa, não apresenta nenhum tipo de peçonha ou veneno. Ele ocorre em ambiente bentônico, nas águas rasas do Indo-pacífico, e se alimenta geralmente de pequenos peixes e crustáceos, caçando ativamente durante o dia, o que não é muito comum entre outras espécies de enguias da região (Fishbase, 2023). De acordo com Randall (2005), o peixe-enguia-arlequim é um exemplo do mimetismo Batesiano em peixes, pois mimetiza a espécie de serpente marinha Laticauda colubrina (Schneider, 1799) e outras serpentes marinhas.




Figura 3: Serpente marinha Laticauda colubrina sobre uma rocha, na ilha de Orchid, Taiwan. Fonte: Liu et al., 2012.


Essa espécie também pode ser encontrada na região do Indo-pacífico e em outras regiões, e pertence à família Elapidae. Ela apresenta uma coloração bem chamativa, composta por anéis pretos e padrão dorsoventral branco, e é considerada uma espécie semi-aquática. A L. colubrina apresenta características únicas que permitem com que ela habite tanto a terra quanto o mar, como por exemplo sua cauda em formato de remo, que facilita seu nado na água, e as suas largas escamas ventrais, que facilitam a sua locomoção em terra. Geralmente, ela se alimenta nos recifes de corais no oceano e retorna ao ambiente terrestre para digerir seu alimento, descansar, acasalar, trocar de pele e botar ovos (Gherghel et al., 2016). Uma curiosidade é que também apresentam um alto grau de filopatria, que pode ser definido como a migração de um animal de volta a sua região natal para reproduzir-se ou alimentar-se, comportamento bastante conhecido, por exemplo, nas tartarugas-marinhas.

Agora que conhecemos mais sobre a espécie, vamos descobrir o porquê dela ser mimetizada pela enguia M. colubrinus: assim como outras de sua família, essa espécie de serpente é extremamente peçonhenta, e apresenta uma peçonha potente e neurotóxica. Além disso, ambas as espécies compartilham a mesma área de ocorrência, que é a região do Indo-pacífico, e o mesmo padrão de coloração



Figura 4: a) Modelos de massinha do experimento do estudo de Goiran et al. (2022); b) Mergulhador deixando o modelo no mar; c) peixe predando o modelo de massinha do estudo. Fonte: Goiran et al. (2022).



O mimetismo Batesiano consiste em um organismo que imita uma característica aposemática de outro organismo, de maneira a confundir possíveis predadores e evitar de ser predado (Ricklefs, 2010). Um estudo muito interessante e recente que aborda especificamente o mimetismo Batesiano e o padrão de coloração preto e branco de algumas serpentes marinhas é o artigo de Goiran e colaboradores (2022). Nesse estudo, os pesquisadores produziram modelos de massinha com diversos padrões de coloração, variando entre totalmente preto e preto com anéis brancos. Eles colocaram os modelos de massinha no mar e observaram aspectos como a reação dos animais ao redor, a ocorrência de tentativas de predação no modelo e, se ocorressem, a quantidade de tentativas. Por fim, foi possível observar que os modelos de massinha nesse padrão de coloração de preto e branco possuem menos risco de predação, por se assemelhar com serpentes marinhas peçonhentas.

É incrível ver o impressionante mecanismo do mimetismo na prática! E você, sabia da existência dessa serpente e desse peixe?! Deixe nos comentários!



Bárbara Santos Teixeira Costa, graduanda, Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Espírito Santo. Contato: barbarasantostcosta@gmail.com



Referências

BRAY, D. J. Myrichthys colubrinus in Fishes of Australia. 2023. Disponível em <https://fishesofaustralia.net.au/home/species/2898> Acesso em 13 mar. 2023.

FISHBASE. Myrichthys colubrinus (Boddaert, 1781) Harlequin snake eel. 2023. Disponível em < https://www.fishbase.se/summary/8053> Acesso em: 13 mar. 2023.

GHERGHEL, I et al. A revision of the distribution of sea kraits (Reptilia, Laticauda) with an updated occurrence dataset for ecological and conservation research. ZooKeys, n. 569, p. 135-148. 2016.

GOIRAN, C.; SHINE, T.; SHINE, R. The banded colour patterns of sea snakes discourage attack by predatory fishes, enabling Batesian mimicry by harmless species. Proceedings of the Royal Society B, n. 289, p. 1-8. 2022.

RANDALL, J.E. A review of mimicry in marine fishes. Zoological Studies, n. 44, v. 3, p. 299-328. 2005.

RICKLEFS, R. E. A economia da Natureza. 6ª edição, Barueri: Editora Guanabara Koogan. 2010.

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