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OS ANFÍBIOS SÃO BONS PAIS?

Atualizado: Abr 22

Se você já observou lagos, riachos e até mesmo poças d’água, provavelmente já se deparou com ovos de anfíbios ou até mesmo com os girinos, a fase larval desse grupo.


Mas será que os anfíbios cuidam de seus "filhotes", estejam eles na fase de ovos ou larvas?


Texto: Maria Eduarda Bernardino Cunha



Fêmea de Fritziana cf. mitus, uma espécie de perereca-marsupial, carregando seus ovos nas costas. Foto: Deivid Pereira


Os anfíbios cuidam das suas crias?

Pois é, estamos muito acostumados com aves e mamíferos cuidando dos seus filhotes, pois é um comportamento amplamente divulgado, estudado e observado por todos. Nos anfíbios, é comum observarmos ovos e girinos longe dos sapos adultos, mas também existem espécies que apresentam algum cuidado com os seus descendentes, nas fases de ovo e larvas. Eles possuem várias estratégias reprodutivas, e já se conhecem, pelo menos, 30 delas! Faltam estudos para que possamos descobrir esse comportamento em outras espécies, mas tem algumas nas quais já o conhecemos relativamente bem.


O cuidado parental

O cuidado parental é o investimento de energia por parte dos adultos para que a sua prole (ovos e/ou girinos) tenham a melhor chance de sobrevivência. Esse cuidado pode ser, por exemplo, a proteção aos ovos, transporte dos ovos, a proteção e alimentação de girinos. O comportamento é realizado por algumas espécies bem conhecidas aqui no Brasil, que também ocorrem no Espírito Santo.


Espécies que desenvolvem o cuidado parental

A rã-manteiga, nome popular do anuro da espécie Leptodactylus latrans, apresenta cuidado parental relativamente longo e bem estudado. Os cerca de 1.000 ovos (!!!) que podem ser postos, ficam em ninhos de espuma, construídos em conjunto pela fêmea e macho, e desenvolvem-se sob o olhar vigilante da fêmea. Após a eclosão dos girinos, eles permanecem ao redor da fêmea, que os protege de possíveis predadores através de vocalizações agressivas e até mesmo ataque direto ao intruso. Se os girinos estão em uma poça isolada do corpo d’água permanente, a fêmea pode cavar um caminho até ele, afastando seus girinos de uma possível falta de água.



Fêmea de Leptodactylus latrans atento aos seus girinos. Fotografia: Maria Eduarda Bernardino Cunha



Outro exemplo é o da perereca a Boana faber, ou sapo-martelo, que apresenta uma estratégia típica de cuidado parental: a proteção aos ovos. Os machos dessa espécie são muito territoriais e, para atrair as fêmeas, eles devem construir uma pequena piscina isolada em um corpo d’água maior – e as fêmeas são exigentes! Eles dão uma boa olhada ao redor da piscina e podem fazer pequenos ajustes, e só se a considerar satisfatório que ocorre o amplexo com o macho. Os ovos são depositados nessa piscina e, quando há uma alta densidade de outros machos adultos por perto, o pai dos ovos pode ficar cuidando deles, impedindo que outros machos interfiram no desenvolvimento de sua prole.


As espécies do gênero Fritziana são mais difíceis de serem encontradas, já que passam grande parte do tempo em bromélias, havendo pelo menos duas espécies em território capixaba. O nome popular desse gênero é “perereca marsupial” e tem origem no tipo muito interessante de cuidado parental, apresentado pelas fêmeas: elas carregam os ovos fertilizados em uma bolsa nas costas, até a eclosão dos girinos em uma bromélia apropriada para o desenvolvimento e a metamorfose destes.

Estratégias de conservação

Esses foram alguns exemplos, mas deu pra ver que os anfíbios podem ser bem específicos quanto a estratégias reprodutivas e modos de cuidados parentais, né? Portanto, precisam de ambientes bem particulares para o sucesso das próximas gerações.


E sabemos que as ações humanas estão, cada vez mais, alterando todos os ambientes naturais. A coleta ilegal de bromélias, construção de estradas e represas, transformação de ambientes naturais em grandes monoculturas são algumas das ações que podem influenciar diretamente o comportamento de anfíbios. Assim, se tornam essenciais projetos de conservação e educação ambiental que conscientizem o público para esses efeitos. Aqui no Espírito Santo temos o projeto Bromeligenous, que atua em projetos de pesquisa e com o público não-pesquisador à respeito da importância das bromélias para a vida dos anfíbios!


Referências

BORGES-MARTINS, M.; P. COLOMBO; C. ZANK; F.G. BECKER & M.T.Q. MELO. 2007. Anfíbios p. 276-291. In: BECKER, F.G.; R.A. RAMOS & L.A. MOURA (orgs.) Biodiversidade: Regiões da Lagoa do Casamento e dos Butiazais de Tapes, Planície Costeira do Rio Grande do Sul. Ministério do Meio Ambiente, Brasília. 385 p.


POMBAL, J.P.; MARTINS, M. & HADDAD, C.F.B. 1998. Escalated aggressive behaviour and facultative parental care in the nest building gladiator frog, Hyla faber. Amphibia-Reptilia, vol. 19:1.


RODRIGUES, A.P.; GIARETTA, A.A.; SILVA, D.R. & FACURE, K.G. 2011. Reproductive features of three maternal-caring species of Leptodactylus (Anura: Leptodactylidae) with a report on alloparental care in frogs. Journal of Natural History, 45:33-34, 2037-2047.


SESTITO, G.A.; SANTANA, D.J.; GARDA, A.A. & RÖHR, D.L. 2016. Parental distress call: a previously unreported defensive call in female Leptodactylus latrans (Anura, Leptodactylidae). Herpetology Notes, vol. 9: 221-225.

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