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O SAPO-FLAMENGUINHO SABE SE COMO SE PROTEGER!

Texto: Katarine N. Norbertino O gênero Melanophryniscus, pertencente à família Bufonidae, possui atualmente 31 espécies com ocorrência exclusiva para a América do Sul. Em tal gênero encontra-se a espécie Melanophryniscus moreirae, que, por sua vez, é endêmica do Brasil, tendo sido registrado nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Esse adorável sapinho apresenta o dorso escuro e rugoso, marcadamente repleto de glândulas. Já o seu ventre tem coloração vermelha, denominada como cor aposemática, ou seja, funciona como um alerta para possíveis predadores.


Ainda, por essa coloração estar associada a partes do corpo que, quando em repouso, não são de fácil visualização, em algumas espécies podem ser verificados variados comportamentos que exibem tais regiões. Por isso, representam uma sinalização de alerta, algo como: "não mexa comigo que eu causo danos!".



Imagem 1. Melanophryniscus moreirae em repouso sobre o solo. Foto: Thiago Silva-Soares.



Mas as cores não agem sozinhas! O dorso amplamente coberto por glândulas representa a defesa química que a espécie possui, da qual secretam diferentes compostos químicos que são oriundos de “alcalóides roubados na dieta”. Dessa forma, Jeckel (2015) constatou que, quanto mais velho o indivíduo de M. moreirae, maior será a riqueza de alcalóides secretados, tendo relação com maior tempo (de vida) consumindo artrópodes, os quais são a fonte desses alcalóides. Assim, tais compostos inibem o ataque de possíveis predadores não só porque esses alcalóides dão aos sapinhos "um gosto ruim" mas também porque, a depender da quantidade ou mesmo de qual bicho tenta os predar, esses químicos podem causar intoxicação (como já foi relatado em Liophis miliaris tentando predar Pithecopus rohdei).


Vale lembrar, que eles nem sempre estão expostos ao combate! Outra característica muito interessante sobre esse anfíbio, é a sua capacidade de “hibernar”, uma vez que, nas áreas de sua ocorrência, os indivíduos são encontrados com facilidade no período chuvoso e quente, mas quando o clima esfria… eles desaparecem! Com isso, alguns pesquisadores já encontraram M. moreirae entocados em cavidades no solo e em estado de dormência, imóveis mesmo quando manuseados. Os mesmos registraram que os sapinhos só saíam da dormência após alguns minutos de estímulo.


Com base em tudo isso, você já deve imaginar a sorte e o encanto que deve ser encontrar esse sapinho na natureza!



REFERÊNCIAS


CARVAJALINO-FERNÁNDEZ, J. M.; JECKEL, A. M.; INDICATTI, R. P. Melanophryniscus moreirae (Amphibia, Anura, Bufonidae): Dormancy and hibernacula use during cold season. Herpetol Bras, v. 2, p. 61-2. 2013.


FERREIRA, R. B. et al. Antipredator mechanisms of post-metamorphic anurans: a global database and classification system. Behavioral Ecology and Sociobiology, v. 73, n. 5, p. 1-21., 2019.


FROST, D. R. Amphibian Species of the World: an Online Reference. Version 6.0 (08, jan. de 2022). American Museum of Natural History, New York, USA, 2021. Disponível em: <http://research.amnh.org/herpetology/amphibia/index.html>. Acesso em 27 ago. 2022.


JECKEL, A. M. Defesa química em Melanophryniscus moreirae: a diversidade de alcalóides aumenta à medida que os indivíduos envelhecem?. Dissertação (Mestrado em Ciências Biológicas) - Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2015.


SAZIMA, I. Experimental predation on the leaf-frog Phyllomedusa rohdei by the water snake Liophis miliaris. Journal of Herpetology, v. 8, n. 4, p. 376-377, 1974.


TOLEDO, L. F.; HADDAD, C. F. B. Colors and some morphological traits as defensive mechanisms in anurans. International Journal of Zoology, v. 2009, p. 1-11., 2009.


TOLEDO, L. F. Predação e defesa de anuros: revisão, descrição e evolução. Tese (Doutorado em Ciências Biológicas) - Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho, Rio Claro, 2007.


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