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NOMES POPULARES: PROBLEMA OU SOLUÇÃO?

Atualizado: 15 de jun. de 2023

Texto: Bárbara Santos Teixeira Costa


Os nomes populares são termos usados e gerados de maneira regionalizada, que nomeiam plantas e animais de forma coloquial e trazendo parte da bagagem cultural. Lineu unificou a nomeação dos seres vivos por meio dos nomes científicos. O que solucionou alguns problemas que os nomes populares causavam, porém, também gerou outros problemas. Afinal, quais são eles?! Vem com a gente para descobrir!


Imagem 1: A serpente Pseudoboa nigra sobre a serrapilheira na REBIO do Córrego do Veado, Pinheiros, ES. Autoria: Bárbara Santos Teixeira Costa (Instagram: @bio.barbara).


Carolus Linnaeus, ou Lineu, foi um biólogo sueco do século XVIII, no qual foi um exímio estudioso das mais diversas áreas. Em 1735, Lineu popularizou o uso do nome binomial através do lançamento de seu livro Systema Naturae, revolucionando a comunidade científica da época. Com isso, surge o conceito de nome científico binomial. O nome científico possui a enorme vantagem de definir um único nome para uma determinada espécie, visto que a mesma pode possuir nomes populares que podem variar de acordo com sua região geográfica, idade, e até mesmo dentro de uma única localidade. Um exemplo de como uma serpente pode ter muitos nomes populares é a Pseudoboa nigra (Imagem 1), que pode ser chamada de muçurana, cobra-do-leite, cobra-preta, mussurana e entre outros. Dessa forma, o nome científico permite que um único ser possua um único nome. Porém o nome popular, como dito anteriormente, é algo antigo e enraizado na população, repassado por diversas gerações familiares, que dificilmente aceitaria a substituição do nome popular pelo nome científico dos seres. Além disso, sabe-se que os nomes científicos não são fixos, e modificam-se de acordo com a hipótese taxonômica mais harmônica. O que gera uma dificuldade a mais para quem não está habituado a usá-los.


Um caso interessante a ser contemplado é o descrito por Mota da Silva e colaboradores, onde em 2019 eles realizaram um estudo na região do Alto Juruá, no Acre, justamente sobre o uso dos nomes populares de duas serpentes da região. Essas serpentes possuem os nomes Lachesis muta e Bothrops atrox (Imagem 2), e são em grande parte responsáveis pelos envenenamentos da região.


Figura 2: a) Jovem de Bothrops atrox, conhecida popularmente como jararaca na região; b) Adulto de Bothrops atrox, conhecida popularmente como surucucu na região; c) Adulto de Lachesis muta, conhecida popularmente como surucucu-pico-de-jaca na região. Autoria: Mota da Silva et al., 2019.


Nesse estudo, os autores entrevistaram cada vítima de envenenamento por serpente de um hospital da região, registrando os sintomas de cada uma e coletando informações com a vítima sobre as serpentes que os picaram. Para cada vítima foi mostrado uma prancha com diversas fotos de serpentes, para que eles pudessem localizar a serpente responsável pelo envenenamento. Além disso, eles perguntaram o nome que cada vítima conhecia para a serpente identificada.


Os autores do estudo conseguiram obter resultados muito curiosos: a Bothrops atrox, que geralmente é reconhecida como jararaca, grande parte da população local a considera como jararaca quando jovem e surucucu quando adulta! Ou seja, seu nome popular varia de acordo com sua idade, e ainda, ela possui mais dois outros nomes na região. Isso mostra a importância do profissional de saúde ser capaz de reconhecer os variados sintomas de envenenamento de cada espécie de serpente, visto que seu nome popular pode variar.

Por fim, a pergunta levantada pelo título da matéria é a resposta mais usada pelos biólogos do mundo todo: depende! Cada caso é um caso, e o uso do nome popular e científico pode ser benéfico para as mais variadas situações! Basta saber discernir quando deve usá-los!



Referências

AMORIM, D. S. Fundamentos de sistemática filogenética. Holos Editora: Ribeirão Preto. 2002. p. 154.

MOTA-DA-SILVA, A.; MONTEIRO, W. M.; BERNARDE, P. S. Popular names for bushmaster (Lachesis muta) and lancehead (Bothrops atrox) snakes in the Alto Juruá region: repercussion to clinical-epidemiological diagnosis and surveillance. Rev. Soc. Bras. Med. Trop., v. 52, n. 1, p. e-20180140. 2019.


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