NEM TUDO É O QUE PARECE SER


Texto: Jéssica Mascarello


Certamente o mimetismo é um dos mais incríveis fenômenos ecológico-evolutivos. A origem do termo é da expressão grega “mimetés” que significa imitação. O mimetismo é uma interação ecológica que envolve três agentes: o modelo, o imitador e o organismo que interage com ambos. O modelo a ser imitado geralmente apresenta características vantajosas de alto valor adaptativo que, de alguma forma, vai beneficiar o organismo imitador. E o terceiro agente, frequentemente, é um predador que possui aversão ao modelo e, consequentemente, vai apresentar o mesmo comportamento com espécies semelhantes. Ou seja, o imitador vai se safar de alguma forma.


Diversas podem ser as características imitadas pelo organismo mímico, desde comportamento exibido por espécies perigosas ou impalatáveis, até mesmo colorações de advertência. Por vezes, o mimetismo pode ser confundido com a camuflagem e é importante deixarmos claro que são coisas distintas. Na camuflagem, o organismo se mistura ao ambiente em que vive, como podemos ver na foto 1, tendo a vantagem de não ser notado, tanto por suas presas quanto para possíveis predadores.


Figura 1: Vitreorana uranoscopa camuflada em uma folha. Fotografia: Leticia Watanabe.


Dos tipos de mimetismo

Quando o organismo mimético apresenta características morfológicas semelhantes às do organismo modelo, estamos nos referindo ao “Mimetismo Batesiano”. Na foto 2 podemos ver a espécie Oxyrophus clathratus (falsa-coral) que apresenta o mesmo padrão de cor das espécies de corais verdadeiras do gênero Micrurus.


Figura 2: Serpente Oxyrophus clathratus (Falsa-coral). Fotografia: Thiago Silva-Soares.


Outro caso de Mimetismo Batesiano é o de espécies que apresentam coloração aposemática (coloração de advertência), mas não possuem a verdadeira nocividade como a do organismo modelo. Nesse caso, a coloração da espécie aposemática é um sinal de advertência, já a do mímico é um disfarce (espertinho, não é mesmo?!).


Já no caso do “Mimetismo Mulleriano", espécies miméticas apresentam estratégias de defesa da mesma forma que as do organismo modelo, assim, ambas estarão protegidas por (e.g.) impalatabilidade. Contudo, pode-se dizer que ambas estão protegidas devido a semelhança na coloração de advertência. É um comportamento de defesa muito comum em organismos abundantes, como os insetos.


Essa aí é falsa, hein?!

Um clássico do mimetismo entre os vertebrados é a imitação de cobras-corais. O gênero Oxyrhopus contém diversas espécies de serpentes popularmente conhecidas por falsas-corais. Serpentes Oxyrhopus spp. apresentam padrões morfológicos que supostamente imitam as espécies do gênero Micrurus (corais verdadeiras), dentre elas, duas que ocorrem no Espírito Santo: Oxyrhopusclathratus Duméril, Bibron & Duméril, 1854 e Oxyrhopustrigeminus Duméril, Bibron & Duméril, 1854. De fato, estudos comprovam que o padrão coral proporciona proteção contra predadores visualmente orientados, que entendem o padrão aposemático como sinal de potencial periculosidade.


Figura 3: Micrurus corallinus (Coral verdadeira); Fotografia: Thiago Silva-Soares.


Figura 4: Oxyrophus trigeminus (Falsa coral). Fotografia: Ricardo Marques.

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Referências

Banci, K.R.S. (2014): O mimetismo entre serpentes de padrão coral na Serra do Mar. Dissertação de mestrado, Universidade Estadual Paulista, São José do Rio Preto, São Paulo, Brasil.

Bosque, R.J., Noonan, B.P. & Colli, G.R. (2016): Geographical coincidence and mimicry between harmless snakes (Colubridae: Oxyrhopus) and harmful models (Elapidae: Micrurus). Global Ecol. Biogeogr. 25: 218–226.

Silva-Soares, T. & De Alencar, T. (orgs.). (2019): Herpeto Capixaba. Répteis do Espírito Santo: Lista das espécies de répteis ocorrentes no Estado do Espírito Santo, sudeste do Brasil. Disponível em: www.herpetocapixaba.com.br/


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