HUMANOS E SAPOS, UMA COISA EM COMUM: PANDEMIA

Atualizado: Abr 22

O caso do SARS-CoV-2 e como se relaciona com o do Bd.


Texto: Lucas Rosado e Ubiratã F. Souza


No dia 20 de março, dia mundial dos sapos, lembramos de uma comemoração no Instagram do Herpeto Capixaba, todavia, com o peso de uma dolorosa tristeza que nos aflige nos últimos meses. Mais do que nunca vale refletir sobre esse grupo tão magnífico, e quem sabe nos sensibilizarmos já que estamos passando por algo que eles passam já faz um tempo. Refletir sobre a sua relação com a gente, o Homo sapiens, já que são animais de tão grande importância, embora comumente esquecida. Eles são ótimos bioindicadores da qualidade ambiental devido às suas características biológicas e fisiológicas, como possuir uma pele, no geral, permeável e de função respiratória, extremamente sensível à alterações ambientais.


Assim como nós, os sapos vêm sofrendo de um grande problema, uma pandemia. Todavia, no caso deles, o agente patogênico é o fungo Batrachochytrium dendrobatidis ou Bd para os íntimos (Figura 1), um fungo que causa a chamada quitridiomicose, agindo na epiderme queratinizada dos anfíbios, provocando hiper queratinização, descoloração e eritemas (manchas avermelhadas na pele ou membranas de muco). Já para as salamandras temos outra espécie, o Batrachochytrium salamandrivorans (Figura 2), com atuação semelhante ao Bd (4 e 10).


Figura 1: Rã-arborícola-branca (White’s Tree Frog), Litoria caerulea infectada com Bd (Fonte: Wright, 2014).


Figura 2: Salamandra infectada por Batrachochytrium salamandrivorans. Foto: Niklas Banowski (@Niklas_wildlife).


O Bd foi registrado pela primeira vez através de estudos herpetológicos nos anos de 1970, todavia foi apenas reconhecido como uma ameaça que não poderia ser explicada por fenômenos de mudança ambiental e/ou ações humanas isoladas em 1990 (8). Pode-se considerar este como o patógeno de vertebrados mais devastador já conhecido até então, provocando o declínio em populações de mais de 200 espécies de anfíbios ao redor de todo o mundo (10), sendo documentado em seis diferentes regiões, como na Austrália em 1970 e 1990, América Central em aproximadamente 1970, América do Sul em 1970 e 1980, na América do Norte em 1980 e 1990, na Península Ibérica em 1990, e nas Ilhas do Caribe em 2000 (8).


Por mais que o primeiro registro tenha sido feito nos anos de 1970, estima-se que seu ancestral originou-se entre 50 à 100 anos atrás (1962 - 1895) e seu local de provável surgimento foi no Leste Asiático, uma vez que a Coreia demonstra-se ser o seu centro de diversidade (8). Mas aí tu me pergunta: E como isso se relaciona com esta atual pandemia?


O Bd se espalhou por grande parte do mundo devido ao grande fluxo de animais vendidos no tráfico, visando consumo de carne, como animais de estimação – os pets -, e/ou uso medicinal (8), deste modo, foi introduzido em regiões onde não ocorria naturalmente. Os anuros da região de origem, por sua vez, desfrutam de uma história evolutiva compartilhada com esses fungos, logo, esses anfíbios não sofrem os mesmos efeitos deletérios que as outras populações - onde o fungo foi introduzido - começaram a sofrer, pois, por serem nativos de uma mesma região, partilharam dessa mesma história ao longo de milhares de anos: eles co-evoluíram. E foi aí onde o problema se configurou. Incentivado pelo comércio de animais silvestres, ele se difundiu e tornou-se uma espécie invasora em várias regiões do globo caracterizando uma pandemia (Bd Global Panzootic Lineage) (7). Te fez lembrar algo? A caça e o comércio de animais silvestres para alimentação, pets, atividades medicinais...


A pandemia que estamos vivendo de dezembro de 2019 até o dia de hoje, 24 de março de 2020, tem como responsável o SARS-CoV-2 (Severe acute respiratory syndrome coronavirus 2). O famigerado Coronavírus tem nos assolado nos últimos dias e provavelmente teve origem do consumo de Pangolins (Manis javanica) ilegalmente provindos da província de Guangdong e comercializados no mercado de Huanan na região de Wuhan (1) – muito embora já em 2007 pesquisas apontassem morcegos como ótimos depósitos naturais de Coronavírus, o grupo de vírus do SARS-CoV-2 (4). Um adendo nesse momento: a denominação COVID-19 é referente à doença em específico que ele causa, um tipo de pneumonia grave (1), derivado do inglês Coronavirus Desease no ano de 2019.


O grupo de Coronavírus do SARS-CoV-2 é conhecido pela comunidade científica desde 1960, vocês devem se lembrar dele, não? Vamos te relembrar então: a SARS-CoV (SARS) que nos assombrou em 2002 é um coronavírus que estava em um Civeta (Puma sp) comercializado no tráfico (6); se preferir temos também o MERS-CoV (MERS) que esteve conosco em 2012 provindo de um Camelo (3), tem também alguns outros, como HKU1, NL63, OC43 e 229E, todas denominações de diferentes coronavírus que vivem conosco (1).


Hoje sofremos com COVID-19, enquanto que os sapos sofrem com o Bd desde pelo menos 1962, até onde se sabe. Para este fungo ou qualquer outro patógeno passar para nós não é muito difícil. E se você acha que é difícil disso acontecer, vamos te dar alguns exemplos, segue o fio: muitas outras doenças já foram transferidas de animais para nós, desde 1980 mais de 35 novas infecções apareceram em humanos, dando aproximadamente 1 a cada 8 meses! Destas podemos destacar o HIV, resultado do consumo de Chimpanzés; Ebola, resultado do contato com grandes macacos; H5N1, uma variação da Influenza A, foi resultado do contato com águias da montanha (7).


Além do surgimento de novas doenças, esses patógenos trazem consigo resistências a nossos medicamentos. Desta forma, temos dois problemas em um, o surgimento de uma nova doença e a seleção de super patógenos. Ilustrando para vocês em números, em 2019 morreram 23.000 pessoas nos Estados Unidos e 33.000 na Europa, por conta de superbactérias. A estimativa é de que chegue a 10 milhões de mortes até 2050 advindas dessas bactérias (9).


Esses dados nos mostram que o surgimento de patógenos em nós, Homo sapiens, é proveniente do contato, em geral, indevido ou não recomendado, com outras espécies. Todavia, isso engloba também os profissionais que trabalham em campo ou em contato direto com espécies silvestres e não silvestres, como veterinários e biólogos. Neste caso, medidas para contenção de possíveis patógenos como (e.g.) usar luvas no manuseio de animais silvestres, devem ser seriamente consideradas e praticadas. Com certeza, esse impacto é menor quando comparado à exploração ilegal animal (caça, tráfico, etc.), mas ainda assim não podemos ignorá-lo. Como pesquisadores, quando em campo, nossa missão antes de tudo é impactar o mínimo possível o ambiente no qual estamos estudando. Caso contrário, para onde vai o nosso tão falado: “Conhecer para conservar”? se até mesmos nós, possivelmente agindo de forma irresponsável e negligente, podemos agravar o declínio das populações de animais silvestres.


Assim, esta comemoração em meio ao luto, termina com um pedido: contribuam para a menor propagação destes agentes patogênicos, pois, para nós, pode não causar problemas (ainda... olha o COVID-19 aí....) como no caso do Bd, mas para outros grupos pode ser a causa de sua extinção. Sigam as recomendações da OMS de isolamento e higienização para diminuir a propagação do COVID-19 (11), em outras palavras - FIQUEM EM CASA! - e não incentivem a caça, captura ou qualquer tipo de comércio ilegal de animais silvestres.


Não se esqueçam: apoiemos a ciência! Afinal, desde 2007 fomos alertados do potencial deste vírus pelo meio científico, o qual tão negligentemente foi ignorado pelas autoridades e agente tomadores de decisões!


E hoje, de lamurienta forma, a vida de milhares - até agora - choramos.


Referências

(1) Andersen, K.G., Rambaut, A., Lipkin, W.I., Holmes, E.C. & Garry, R.F. 2020. The proximal origin of SARS-CoV-2. Nature Medicine. DOI: 10.1038/s41591-020-0820-9.

(2) Cheng, V.C.C., Lau, S.K.P., Woo, P.C.Y. & Yuen, K.Y. 2007. Severe Acute Respiratory Sýndrome Coronavirus as an Agent of Emerging and Reemerging Infection. Clinical Microbiology Reviews. v 20(4): 660-694.

(3) Fan, Y., Zhao, K., Shi, Z. & Zhou, P. 2019. Bat Coronaviruses in China. Viruses. v 11(3):210. DOI: 10.3390/v11030210

(4) Greshko, M. 2018. Fungo devorador de pele é o responsável por apocalipse anfíbio. Disponível em: >https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2018/05/fungo-devorador-de-pele-e-o-responsavel-por-apocalipse-anfibio< Acesso em: 20 de março de 2020.

(5) Karesh, W.B., Cook, R.A., Bennett, E.L. & Newcomb, J. 2005. Wildlife trade and global disease emergence. Emerging Infectious Diseases. v 11 (7): 1000-1002.

(6) Lau, S., Woo, O.C.Y., Li, K.S.M., Huang, Y., et al. 2005. Severe acute respiratory syndrome coronavirus-like virus in Chinese horneshoe bats. Proc Natl Acad Sci U S A. 102(39): 14040-14045. DOI:10.1073/pnas.0506735102

(7) Mutnale, C. M., Anand, S., Eluvathingal, M. L., Roy, K. J. Reddy, G. S. & Vasudevan, K. Enzootic frog pathogen Batrachochytrium dendrobatidis in Asian tropics reveals high ITS haplotype diversity and low prevalence 2018. 8: 10125. DOI:10.1038/s41598-018-28304-1

(8) O’Hanlon, S.J., Rieux, A., Farrer, R.A., Rosa, G.M., et al. 2018. Recent Asian origin of chytrid fungi causing global amphibian declines. Science. v 360: 621-627.

(9) Pacios, O., Blasco, L., Bleriot, I., Fernandez-Garcia, L. et al. 2020. Strategies to combat Multidrug-Resistant and Persistent Infectious diseases. Antibiotics. v 9(2). DOI: 10.3390/antibiotics9020065.

(10) Wright, K. 2014. Amphibian Therapy. Current Therapy in Reptile Medicine and Surgery, 281–288. DOI: 10.1016/b978-1-4557-0893-2.00025-9.

(11) WHO. 2020. Coronavirus. Disponível em: > https://www.who.int/health-topics/coronavirus#tab=tab_1< Acesso em: 24 de março de 2020.

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