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HERPETOLOGIA: UM POUQUINHO DE NOSSA HISTÓRIA


Texto: Ubiratã F. Souza


O conhecimento da herpetofauna brasileira foi contado, basicamente, sob os olhos curiosos daqueles que de fora vieram. Um toque meio cinematográfico, quase fantasioso, que cativam muitos sob um olhar desconfiado de como tudo aconteceu. Essa é, porém, a nossa história, e foi através dos primeiros exploradores que desbravaram mata adentro que obtivemos nossas primeiras descrições. Grandes exploradores como Maximilian de Wied-Neuwied (1782-1867), von Martius (1794-1868) e von Spix (1781-1826) foram eternizados através das descrições de suas expedições.


De certo, séculos de conhecimento acumulado diante de nosso primeiro contato, a Mata Atlântica. A necessidade de conhecer o que se tinha nesse “Novo Mundo” surgiu cedo, tratados descritivos foram oferecidos e propuseram o conhecer do que temos aqui, e foi através da pena de Gabriel Soares de Sousa, no século XVI, que um dos primeiros relatos ganhou forma, suas descrições quanto aos animais por aqui encontrados e sua relação com os povos indígenas fala muito daquilo que temos hoje:


“Ububobocas são outras cobras assim chamadas do tamanho das jararacas, mas mais delgadas, a que os portugueses chamam de coral, porque têm cobertas as peles de escamas grandes vermelhas e quadradas, que parecem coral” [...]

Tratado descritivo do Brasil em 1587. pág. 221


Figura 1A: Homem Tapuia. Pintura. Figura 1B: Pintura. Mulher tupi. Pinturas: Albert Eckhout.


Assim, passamos a conhecer uma terra de Ububobocas (Micrurus ibiboboca), Caninanas (Spilotes pullatus), Boiubus (Philodryas olfersii ou Erythrolamprus viridis), até mesmo da Boiciningas (“cobra que tange”, espécie Crotalus durissus), aquilo que os portugueses vieram a chamar de cascavel. Mesmo com esforços, a formação desse conhecimento por parte dos portugueses até então foi pequena. As primeiras grandes expedições naturalistas foram de responsabilidade dos holandeses, que no século XVII aqui desembarcaram. Muitos elementos da herpetofauna foram registrados nas pinturas de Albert Eckhout e na obra de Guilherme Piso e George Marcgraf (Historia Naturalis Brasiliae).


São nessas pinturas de Eckhout que esses registros ganharam vida, bichos que nos são comuns até hoje são registrados em suas obras. Como nas imagens acima, o Sapo-cururu (Rhinella jimi) e a Jibóia (Boa constrictor), elementos clássicos da herpetofauna brasileira.Dessa forma, compreendemos a mescla, uma miscigenação, uma construção! De como e a relação com esses animais estiveram presentes em nossa construção histórica, na construção não somente da ciência, mas também de nossa identidade, daquilo que somos como povo, como sociedade, e porquê não, como herpetólogos!


Conhecer a nossa história, em parte, é conhecermos a nós mesmos. Entendermos a nossa identidade, daquilo que fazemos, daquilo pelo qual dedicamos a nossa vida. Porque em parte, olhar com os olhos do passado é compreender o nosso presente, e quem sabe, termos um vislumbre daquilo de nosso futuro.


Referências

Boxer, C. R. 2004. Os Holandeses no Brasil: 1624 – 1654. C. R. Boxer; organização e estudo introdutório Leonardo Dantas Silva; tradução de Olivério M. de Oliveira Pinto; apresentação de Dorany Sampaio. - Recife: CEPE,. 465 p.: il. - (Série 350 anos de Restauração pernambucana ; v.6).


von Spix, J. B. 1824. Animalia nova sive Species novae Testudinum et Ranarum quas in itinere per Brasiliam annis MDCCCXVII–MDCCCXX jussu et auspiciis Maximiliani Josephi I. Bavariae Regis. München: F. S. Hübschmann.


de Sousa, G. S. 2000. Tratado descritivo do Brasil em 1587: Edição castigada pelo estudo e exame de muitos códices manuscritos existentes no Brasil, em Portugal, Espanha e França e acrescentada de alguns comentários por Francisco Adolfo de Varnhagen. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. 9 ed. rev. atual. Recife: FJN, Ed. Massangana,. LII, 355 p. il. (Descobrimentos, 13). Inclui bibliografia.


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