top of page

EUTANASIA E FIXAÇÃO DE RÉPTEIS E ANFÍBIOS

Por Bárbara Bachi e Katarine Norbertino



Quando se trata do desenvolvimento de uma pesquisa científica, coletar material biológico das espécies estudadas e depositá-lo em coleções científicas é uma prática frequente. O material depositado é catalogado, e ficará disponível para que pesquisadores futuros desempenhem novas pesquisas com aquela espécie, sob diferentes abordagens. Além disso, o material servirá como testemunho da existência da população daquela espécie no local em que foi coletada, representando uma informação primordial nos casos em que a população foi extinta. As coletas de material para deposição em coleções não podem ser realizadas de qualquer forma e, por isso, há normas a serem aplicadas a diferentes grupos taxonômicos. Vejamos adiante!


Imagem 1. Serpentes fixadas em bandeja com suas respectivas etiquetas. Fonte: Bárbara Bachi



Quando algum indivíduo de espécies animais é coletado para coleta de material testemunho, o animal é eutanasiado, ou seja, sua morte é induzida da forma mais indolor possível. Com isso, o mais comum é que se faça uso de anestésicos químicos ou congelamento do indivíduo em freezer (acredite, é indolor para animais ectotérmicos).


A lidocaína é o anestésico mais utilizado para o procedimento em anfíbios Em adultos, este composto é injetado de forma intravenosa. Em girinos aquáticos, a alternativa é a eutanasia por meio da imersão dos animais na água com anestésico. Para tanto, a lidocaína é diluída em água e, na sequência, os girinos são imersos no líquido, de forma que pouco a pouco vão sendo anestesiados até pararem totalmente suas atividades metabólicas.


Em répteis, o melhor método para a eutanásia é a injeção de pentobarbital sódico, na proporção de 100 mg/kg, sendo o método mais indicado pela American Veterinary Medical Association (Associação Americana de Medicina Veterinária). O pentobarbital age rapidamente no sistema nervoso central do animal, tornando-o inconsciente com pouco estresse, sendo considerada a maneira mais “humana” de eutanasiá-lo. Entretanto, essa técnica deve ser administrada apenas por pessoas experientes e capacitadas para tal, para que o tempo de manuseio de animal seja diminuído ao máximo, gerando menos estresse. Também é um método que pode ser utilizado com anfíbios, mas como envolve o manuseio do animal, o uso de lidocaína dissolvida em água é a mais indicada para gerar menor estresse aos indivíduos.


Para répteis grandes, como crocodilos e tartarugas, pode ser utilizado o método de disparo com arma de pressão, que causa morte rápida. Entretanto, seu uso deve ser aplicado apenas com pessoas capacitadas para tal, pois pode ser uma técnica muito perigosa tanto para humanos quanto para os animais.


Imagem 2. Anuros adultos fixados em bandeja com suas respectivas etiquetas. Fonte: Thiago Silva-Soares



Após a eutanásia, os espécimes precisam ser conservados de forma adequada para que possam ser depositados nas coleções biológicas. Para tanto, é necessário a ação de produtos químicos que conservem o material biológico por tempo indeterminado, o que permitirá seu uso por diversas gerações de cientistas.

Primeiramente o corpo do animal é posicionado na postura “científica” que for mais amplamente utilizada e estabelecida para o grupo taxonômico em questão (anfíbios, répteis, etc). Um exemplo dessas posturas padrão é o enrolamento do corpo de serpentes pequenas formando uma espiral (Imagem 1). Para anuros, o padrão é manter os membros posicionados pareados de cada lado do corpo (Imagem 2), o que permite que cientistas futuros tomem medidas morfológicas precisas.


Depois do exemplar devidamente posicionado, injeta-se álcool 95% no indivíduo, ou formol 10% para animais de maior porte, com muito cuidado para não danificá-los. Em seguida, os animais são armazenados em recipientes de vidro ou de plástico, e são imergidos em álcool 70%. Por fim, o exemplar é etiquetado e inserido no sistema de dados de uma coleção científica (Imagem 3), onde estará disponível para ser consultado por pesquisadores habilitados e licenciados para tal. Com o passar do tempo, o álcool do recipiente no qual o animal está contido evapora, por isso trocas rotineiras são necessárias. Na troca, para que a proporção de álcool no recipiente se mantenha adequada a conservação do animal é utilizado um alcoômetro, que é uma ferramenta capaz de medir o teor de álcool de uma solução.


Os animais contidos nas coleções biológicas contém informações muito valiosas sobre as espécies às quais pertencem, como informações de sua população, linhagem, variação morfológica, e podem até mesmo pode fornecer conhecimento sobre seus ancestrais! Ter essas informações em mãos é crucial para que pesquisadores trabalhem na conservação dessas espécies, por mais ambíguo que possa parecer. Quanto mais informações soubermos sobre as espécies, mais fácil será de conservá-las, como realizar ações de manejo em áreas degradadas e modificadas pelos humanos a fim de conservá-las.


Biólogos, veterinários e demais pesquisadores utilizam frequentemente as coleções científicas, tanto para consulta como para depósito de novos exemplares. Em ambos os casos, é imprescindível que estes profissionais sigam as recomendações dos órgãos competentes para que tenham licença que os habilitem para tal.



Imagem 3. Prateleira com parte da coleção científica herpetológica do Instituto Butantã. Fonte: Bárbara Bachi



É evidente o quanto a ciência precisa ser realizada com responsabilidade e respeito à biodiversidade estudada. Portanto, garantir que os espécimes sejam conservados tão longo tempo durarem possibilita que seu “sacrifício” seja o mais bem aproveitado possível.




REFERÊNCIAS


CARVALHO, L. S. Métodos de coleta de material biológico, desenho experimental e vieses de amostragem. In: OSWALD, C. et al. 2020. Princípios de Sistemática Filogenética. p. 62-68.


CLOSE, B. et al. Recommendations for euthanasia of experimental animals: Part 2. Laboratory animals, v. 31, n. 1, p. 1-32, 1997.


DODD JR, C. K. (ed.) Amphibian ecology and conservation: a handbook of thechniques. Oxford University Press, 2006.


SIMOONS, J. E.; MUÑOZ-SABA, Y. (ed.). Cuidado, manejo y conservación de las colecciones biológicas. Conservación Internacional: Serie Manuales para la Conservación 1. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2005.




262 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page