A VIDA NAS ALTURAS

Eu imagino que você já tenha encontrado um anfíbio por aí, mesmo sem querer. Provavelmente você viu ele em locais baixos, como na grama do pátio de casa ou em algum arbusto, ou talvez um pouco mais alto grudado na parede do banheiro.

E é o mesmo caso para nós que estudamos esses bichos; a maior parte dos anfíbios que conseguimos ver está em alturas mais baixas, onde conseguimos olhar a vegetação com mais facilidade. Consequentemente, esses são os bichos mais estudados e sobre quem sabemos mais informações.


Texto: Maria Eduarda Bernardino Cunha


Mas os anuros também podem viver em locais mais altos, normalmente os que chamamos de pererecas. As pererecas se diferenciam dos sapos e rãs por possuírem discos adesivos nas extremidades dos dedos das mãos e pés, que são parecidos com ventosas. Esses discos adesivos possibilitam que elas se fixem em superfícies verticais, como as árvores, e assim esses animais podem desenvolver hábitos arborícolas.


Ter hábito arborícola não garante que o indivíduo vá subir grandes alturas, algumas pererecas têm esse hábito e permanecem a poucos centímetros do chão; mas outras são sim capazes de escalar grandes alturas. A perereca-castanhola, Itapotihyla langsdorffii, já foi coletada a 3 metros de altura do chão! Indivíduos em lugares mais altos já foram avistados, mas quanto mais alto o bicho está, mais difícil é a coleta e a medição exata da altura.



Itapotihyla langsdorffii em uma árvore. Podemos ver muito bem os discos adesivos!

A perereca-castanhola pode ter até 10 centímetros de comprimento e, apesar de parecer pequena em dimensões humanas, tem um tamanho bem grande quando comparada a outras pererecas. Um bicho desse tamanhão todo a 3 metros do chão já é chocante, né?! Imagina agora uma perereca que não passa de 3 centímetros nessa altura toda!!!


Esse é o caso da perereca marsupial Fritziana fissilis, que passa a vida inteira em bromélias bem altas - frequentemente ouvimos o canto dos machos de dentro dessas plantas e nem conseguimos alcançá-los, tamanha a altura em que se encontram. Não sabemos quase nada sobre essa espécie, além do fato de viverem em bromélias e carregar os ovos em uma bolsa nas costas (daí o nome marsupial!), já que vivem mais longe do nosso alcance (e não é fácil levar uma escada para o meio do mato para podermos ver esses bichos, né?!).


Outras espécies também são chamadas de pererecas marsupiais, já que também carregam os ovos nas costas, uma delas é a Gastrotheca megacephala. Ela também é uma perereca de grande tamanho, com as fêmeas podendo chegar a quase 10 centímetros, mas ocorre em uma altura bem maior. Um indivíduo já foi coletado a 7 metros do chão! Mas muitos autores já disseram que essa espécie costuma viver no dossel da floresta, ou seja, na parte mais alta das árvores, então 7 metros talvez seja até uma altura um pouco baixa para ela.


É legal sabermos que ocorrem tipos e modos de vida diferentes daqueles com os quais somos mais acostumados, mesmo que ainda não os entendamos muito bem!


Referências

Vrcibradic, D.; Teixeira, R.L. & Borges-Júnior, V.N.T. 2009. Sexual dimorphism,

reproduction and diet of the casque-headed treefrog Itapotihyla langsdorffii (Hylidae: Lophiohylini). Journal of Natural History, 43(35-36): 2245-2256.

Zomenico, C.Z. & Ferreira, R.B. 2013. Comportamentos defensivos exibidos por Gastrotheca megacephala Izecksohn, Carvalho-e-Silva & Peixoto, 2009. Anais do II Simpósio Sobre a Biodiversidade da Mata Atlântica. Santa Teresa, p. 229-232.

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