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VÃO OS ANÉIS, FICAM OS DEDOS (QUASE ISSO): AUTOTOMIA CAUDAL EM LAGARTOS

Texto: Débora Cristina B. M. de O. Santos


Alguns lagartos possuem a capacidade de soltar a cauda e regenerá-la depois. É um mecanismo de defesa contra predadores chamado autotomia caudal. Vem conhecer mais um pouco sobre essa fascinante característica.


Autotomia caudal


A autotomia caudal é a capacidade de soltar a própria cauda voluntariamente, ocorrendo a regeneração da mesma posteriormente (mas nem todas as espécies conseguem regenerá-la). Essa capacidade está presente na maioria das espécies de lagartos, sendo uma forma de defesa contra predadores.


Esta estratégia de defesa é tão importante que algumas espécies podem atrair a atenção do predador para a cauda, por meio de movimentos da mesma, ou apresentando cauda com coloração, forma ou tamanho chamativos. Após a autotomia, a cauda apresenta movimentos erráticos (imprevisíveis), atraindo a atenção do predador, permitindo que o lagarto fuja.

Imagem 1. Plano de fratura intravertebral em cauda de Gecko gecko (pontas de seta). Fonte: Gilbert, Payne e Vickaryous (2013) (cortada).


Como ocorre


A cauda dos lagartos é segmentada, apresentando locais específicos onde ocorre a separação da cauda. Os músculos da cauda de um segmento se encaixam aos músculos do segmento anterior como um plugue em uma tomada. Além disso, na maioria das espécies as vértebras da cauda apresentam um plano de fratura intravertebral (uma região mais frágil do osso, localizada no meio da vértebra, Imagem 1). Em algumas espécies ocorre a fratura intervertebral (entre as vértebras).


A autotomia ocorre devido a contração dos músculos da cauda na região do plano de fratura. As contrações causam o rompimento da vértebra no plano de fratura, bem como rompem a adesão entre os músculos. Com isso a cauda se separa do restante do corpo. Os movimentos apresentados pela cauda autotomizada ocorrem devido ao metabolismo anaeróbico, que permite que os músculos continuem se contraindo.


Regeneração

Imagem 2. Cauda original e regeneração em Eublepharis macularius (gecko leopardo). A: cauda original mostrando o ponto onde sofreu autotomia (ponta de seta). B: cauda autotomizada, mostrando tecidos expostos e o fechamento do tegumento (setas). C: formação do coágulo, com vértebra exposta (ponta de seta). D: novo epitélio formado exposto após a perda do coágulo (~4–8 dias). E–H: regeneração da cauda. ~8–15 dias (E), ~12–26 dias (F) e ~18–30 dias (G). Início da pigmentação (H). Fonte: Gilbert, Payne e Vickaryous (2013).


Após o sacrifício da cauda se forma uma ferida, deixando os tecidos internos expostos, e se inicia o processo de cicatrização e regeneração. Em pouco tempo (minutos ou horas, dependendo da espécie) o tegumento começa a se fechar, diminuindo o tamanho da ferida (Imagem 2B). Também se forma um coágulo de fluido e sangue, que fecha a ferida (Imagem 2C). Abaixo do coágulo se inicia a proliferação de queratinócitos que formam um novo epitélio sobre a ferida, que é essencial para a regeneração da cauda.


Abaixo do novo epitélio forma-se um blastema, uma massa de células pouco diferenciadas. Em seguida, ocorre a perda do coágulo, expondo o novo epitélio (Imagem 2D), e a formação dos novos tecidos para regeneração da cauda. Externamente é possível visualizar a formação de um cone, como se fosse a ponta da nova cauda (Imagem 2). O tempo de regeneração total varia entre as espécies, podendo levar meses para que o processo termine.


Apesar da nova cauda ser semelhante à cauda original, elas diferem em muitos aspectos. A cauda regenerada não possui vértebras e, portanto, não possui planos de fratura. Seu esqueleto é formado por um cone cartilaginoso. Dessa forma, a cauda regenerada não pode sofrer autotomia. Uma nova autotomia só poderá ocorrer se parte da cauda original, que mantenha algum plano de fratura, ainda existir. Além disso, existem diferenças na musculatura e na medula espinhal, além de apresentar uma proporção maior de lipídios.


Embora a autotomia caudal e a regeneração estejam relacionados, estes eventos são independentes. A regeneração pode ocorrer mesmo quando a cauda é perdida fora do plano de fratura. Esta independência pode levar à formação de caudas multifurcadas (com mais de uma ponta). Isso pode ocorrer devido à autotomia parcial ou à lesões sofridas pela cauda. Em ambos os casos, a região da cauda com os tecidos internos expostos se regeneram, dando origem a uma nova cauda, inclusive em espécies que não realizam autotomia caudal.


É mais comum que ocorra apenas a bifurcação, ou seja, a formação de duas pontas, mas pode ocorrer a formação de mais pontas. Em 2016, Pelegrin e Leão reportaram um caso de um indivíduo jovem de Salvator merianae (teiú) com uma cauda de seis pontas (Imagem 3). A cauda apresentava evidências de ter sofrido dano por um objeto afiado e seis caudas foram geradas a partir de diferentes pontos.

Imagem 3. Indivíduo de Salvator merianae com múltiplas caudas, totalizando seis pontas. Fonte: Pelegrin e Leão (2016).


A autotomia caudal e sua posterior regeneração não é exclusiva dos lagartos. Salamandras são anfíbios com grande capacidade de regeneração, podendo reconstituir membros e cauda, incluindo a estrutura óssea. Entretanto, os lagartos apresentam algumas vantagens para o estudo da regeneração. Além da cauda eles são capazes de regenerar a pele, sem a formação de cicatrizes, e regiões do sistema nervoso, mas, principalmente, dentre os amniotas são os que apresentam a melhor capacidade de regeneração. Com isso, se tornam um importante objeto de estudo na evolução e perda da capacidade de regeneração em outros amniotas, como mamíferos.


Referências


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