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QUANDO UMA BOA IDEIA EVOLUI MAIS DE UMA VEZ!

Texto: Bárbara Santos Teixeira Costa


Caro leitor, caso fosse a primeira vez que se deparasse com as duas serpentes abaixo, lado a lado, como você as classificaria? Talvez colocaria como espécies irmãs, ou até mesmo como sendo da mesma espécie. Entretanto, na realidade, as duas serpentes são bem distantes entre si, tanto geograficamente como taxonomicamente! E se você se pergunta como elas podem ser tão parecidas, isso é o que iremos descobrir hoje!

Imagem 1: a) Píton-verde (Morelia viridis). Autoria: John Rummel. b) Jiboia-verde (Corallus caninus). Autoria: Pedro Bernardo. Imagens retiradas de Esquerré e Keogh, 2016. Link do artigo.

Jiboia-verde


Por um lado tem a Corallus caninus, conhecida como Jiboia-verde. Essa espécie ocorre em diversos países da América do sul no bioma Amazônico, sendo eles Guiana, Guiana Francesa, Venezuela, Suriname e Brasil (Henderson et al., 2009). No Brasil, ela ocorre nos estados de Roraima, Amapá, Amazonas e Pará (Costa, Guedes e Bérnils, 2022). A etimologia do nome caninus vem do latim, se referindo à aparência canina da sua cabeça (Henderson, 1993).


A Jiboia-verde é arborícola e noturna, se alimenta de aves, roedores e marsupiais, mas os indivíduos jovens se alimentam de lagartos (Henderson et al., 2009). Quando adulta, como o seu nome popular diz, sua coloração dorsal é verde, no entanto, quando jovem apresenta coloração amarela, laranja ou raramente verde (Henderson, 1993). Esse tipo de mudança ao longo da vida é chamada de variação ontogenética. Essa variação se dá com a mudança gradual da coloração dessas serpentes de acordo com seu crescimento, de laranja tornando-se gradativamente verde.


Píton-verde


Já a Píton-verde (Morelia viridis) ocorre em florestas tropicais de baixa altitude da Indonésia, Papua Nova Guiné e Austrália (IUCN, 2018). O epíteto específico viridis significa verde em latim, pois é a sua coloração quando adulto.


Assim como a C. caninus, a M. viridis é uma serpente arborícola e noturna. Da mesma forma, no estágio adulto os indivíduos desta espécie também se alimentam de aves e mamíferos, enquanto os indivíduos jovens se alimentam de lagartos (Natusch e Lyons, 2014). Incrivelmente, tal qual a C. caninus, a M. viridis também apresenta seus filhotes com coloração laranja ou amarela, se tornando verde quando adultos (Wilson et al., 2006)!


Convergência evolutiva


Essa coincidência incrível das características dessas serpentes é o que chamamos de convergência evolutiva. Dita convergência se dá quando duas espécies diferentes acabam tendo respostas similares pelas mesmas condições ambientais, resultando numa evolução independente dos mesmos fenótipos adaptados ao mesmo nicho ecológico (Esquerré e Keogh, 2016). Ou seja: é provável que os ancestrais das duas espécies habitavam locais parecidos (como a nossa floresta tropical amazônica e a floresta tropical da Indonésia), ocupando nichos ecológicos semelhantes. Portanto, acabaram se adaptando de forma semelhante, e com o passar do tempo, ficaram bem parecidas visualmente.


Fantástico, não é mesmo? Conhece mais algum caso de convergência evolutiva? Conta para a gente!


Referências


COSTA, H. C.; GUEDES, T. B.; BÉRNILS, R. S. Lista de répteis do Brasil: padrões e tendências. Herpetologia Brasileira, v. 10, n. 3, p. 110-279. 2022.


ESQUERRÉ, D.; SCOTT KEOGH, J. Parallel selective pressures drive convergent diversification of phenotypes in pythons and boas. Ecology Letters, v. 19, n. 7, p. 800-809. 2016.


HENDERSON, Robert W. Corallus caninus. Catalogue of American Amphibians and Reptiles 574. 1993. p 1-4. Disponível em: http://hdl.handle.net/2152/45434. Acesso em: 11 maio, 2022.


HENDERSON, R. W.; PASSOS, P.; FEITOSA, D. Geographic variation in the emerald treeboa, Corallus caninus (Squamata: Boidae). Copeia, v. 2009, n. 3, p. 572-582. 2009.


NATUSCH, D. JD; LYONS, J. A. Geographic and sexual variations in body size, morphology, and diet among five populations of Green Pythons (Morelia viridis). Journal of Herpetology, v. 48, n. 3, p. 317-323. 2014.


TALLOWIN, O. et al. Morelia viridis. The IUCN Red List of Threatened Species. 2018. Disponível em: <https://www.iucnredlist.org/species/177524/21649845> Acesso em 06 maio 2022.


WILSON, D.; HEINSOHN, R.; WOOD, J. Life‐history traits and ontogenetic colour change in an arboreal tropical python, Morelia viridis. Journal of Zoology, v. 270, n. 3, p. 399-407. 2006.



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