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OS CASOS INTRIGANTES DOS SAPOS QUE SÃO SURDOS

Por Katarine N. Norbertino


Em anfíbios anuros, a principal forma de comunicação é por meio do som, estando correlacionada especialmente a contextos reprodutivos. E não é à toa que, quando o assunto é brejo, a primeira associação que comumente fazemos é a cantoria de sapos, rãs e pererecas que nele se encontram. No entanto, descobertas relativamente recentes têm revolucionado o olhar dos cientistas para esse grupo que, além de apresentar uma certa complexidade nas interações entre os indivíduos, também nos surpreende com algumas particularidades de sua biologia: tal como a surdez! E essa condição foi registrada tanto para algumas espécies do gênero Brachycephalus quanto Pristimantis.

Imagem 1. Representante do gênero Brachycephalus se deslocando sobre a vegetação. Fonte: Thiago Silva-Soares.


O gênero Brachycephalus (Imagem 1), cuja ocorrência limita-se às áreas de Floresta Atlântica do território brasileiro, possui 38 espécies e pertence à família Brachycephalidae. Caracterizados pelo tamanho corporal pequeno, esses animais habitam a serrapilheira e, em virtude das condições ambientais favoráveis dos bosques de Mata Atlântica, apresentam período de atividade diurna.


Em Brachycephalus ephippium e B. pitanga, Goutte e colaboradores (2017), verificaram a ausência de algumas estruturas morfológicas que constituem um "ouvido" de anuro, tais quais estribo, membrana timpânica, dentre outros. Esses autores também puderam constatar que muito embora as duas espécies de Brachycephalus produzam cantos com alta frequência, elas só apresentaram resposta cerebral aos sons de baixa frequência. Ou seja, são surdas ao próprio canto!


E qual a necessidade de vocalizar se os indivíduos da própria espécie não podem ouví-los?

A provável resposta a essa pergunta está justamente nas outras alternativas de comunicação. Isto é, tudo indica que o ato de vocalizar produz movimentos no saco vocal e essa gesticulação possibilita sinais visuais que serão perceptíveis aos seus congêneres. E esse argumento é reforçado pelo hábito diurno que B. pitanga e B. ephippium possuem, que os permitiriam enxergar tais sinais.

Imagem 2. Pristimantis grandoculis repousando sobre folha. Fonte: FOUQUET et al (2022).


Na família Strabomantidae, Fouquet e colaboradores (2022), indicam a ocorrência não só de surdez mas também de incapacidade de produzir cantos em Pristimantis grandoculis (Imagem 2), em virtude da ausência das estruturas envolvidas na emissão e recepção de sinais acústicos.


Apesar da comunicação acústica não se mostrar tão protagonista nessas espécies, há outras vias de comunicação em anfíbios anuros que podem ser melhor exploradas de acordo com o ambiente em que cada espécie está inserida ou mesmo podem ocorrer simultaneamente a outras formas de comunicação, sendo, ainda, a frequência delas (em maior ou menor grau) resultante da história evolutiva das espécies.


REFERÊNCIAS


FOUQUET, A. et al. Back from the deaf: integrative taxonomy revalidates an earless and mute species, Hylodes grandoculis van Lidth de Jeude, 1904, and confirms a new species of Pristimantis Jiménez de la Espada, 1870 (Anura: Strabomantidae) from the Eastern Guiana Shield. Organisms Diversity & Evolution, p. 1-34, 2022.


FROST, D. R. Amphibian Species of the World: an Online Reference. Version 6.0 (08, mai. de 2022). American Museum of Natural History, New York, USA, 2021. Disponível em: http://research.amnh.org/herpetology/amphibia/index.html. Acesso em: 08 mai. 2022.


GOUTTE, S. et al. Evidence of auditory insensitivity to vocalization frequencies in two frogs. Scientific Reports, v. 7, n. 1, p. 1-9, 2017.


GOUTTE, S. et al. Intense bone fluorescence reveals hidden patterns in pumpkin toadlets. Scientific reports, v. 9, n. 1, p. 1-8, 2019.


KÖHLER, et al. The use of bioacoustics in anuran taxonomy: theory, terminology, methods and recommendations for best practice. Zootaxa, 4251 (1), p. 1-124, 2017.


POMBAL JR, J. P.; SAZIMA, I.; HADDAD, C. F. B. Breeding behavior of the pumpkin toadlet, Brachycephalus ephippium (Brachycephalidae). Journal of Herpetology, p. 516-519, 1994.


TOLEDO, L. F. et al. The anuran calling repertoire in the light of social context. Acta ethologica, v. 18, n. 2, p. 87-99, 2015.


VITT, L. J.; CALDWELL, J. P. Herpetology: An introductory biology of amphibians and reptiles. 4 ed. Elselvier. 2014. 749 p.

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