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ELA É DO TIME DO CALOR: CASCAVEL-DO-PACÍFICO X MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Texto: Débora Cristina B. M. de O. Santos


O aumento da temperatura devido às mudanças climáticas traz consigo o risco de extinção para muitas espécies. Nesse contexto, acredita-se que o risco de extinção não apenas aumente, mas também acelere, conforme a temperatura global sobe. Entretanto, para a cascavel-do-Pacífico (Crotalus oreganus) um aumento na temperatura parece ser uma boa pedida.

Imagem 1. Dois indivíduos de cascavel-do-Pacífico (Crotalus oreganus). Um macho maior e mais claro (à esquerda) e uma fêmea menor e mais escura (à direita). Extraído e adaptado de Crowell et al. (2021).


A cascavel-do-Pacífico é uma serpente generalista que ocorre na América do Norte, cujo tamanho varia de 60cm a 120cm de comprimento, dependendo da localidade. Um estudo realizado por Crowell et al. (2021), analisou os dados de quatro populações, duas que ocorrem no interior e duas costeiras. Os pesquisadores avaliaram a ecologia térmica da cascavel-do-Pacífico e concluíram que um aumento na temperatura ambiente não prejudicaria esta espécie. De fato, poderia beneficiá-la.


Neste estudo, foram avaliadas a temperatura de preferência da espécie, a temperatura corporal no ambiente e modelos de temperatura do ambiente em três microhabitats: exposição ao sol, na sombra ou em tocas ao longo do ano. A qualidade térmica do ambiente, que indica se o habitat permite que a temperatura corporal alcance a temperatura de preferência, e as taxas metabólicas, também foram avaliadas.


A espécie apresentou uma preferência de temperatura que variou entre 26,28°C e 32,34°C. Entretanto, a temperatura corporal média apresentada pela espécie no ambiente foi de aproximadamente 23,5°C e 21,2°C para as populações do interior e da costa, respectivamente. Quanto às taxas metabólicas, os pesquisadores concluíram que para manter os custos de manutenção do metabolismo, C. oreganus precisa consumir menos do que o equivalente a um esquilo de 500 g por ano.


No total, apenas 5,6% dos modelos de temperatura ambiente atingiram a faixa de temperatura de preferência de C. oreganus. A maioria (85,6%) ficou abaixo. Com a projeção de aumento da temperatura em 1°C ou 2°C, também aumenta a possibilidade de se atingir a temperatura de preferência (6,4% e 7,5%, respectivamente). Com isso, também aumenta a qualidade térmica do ambiente. Desta forma, um aumento na temperatura pode beneficiar C. oreganus, permitindo que os indivíduos atinjam sua temperatura de preferência com mais facilidade.


Os autores especulam que, com o aumento da temperatura, os indivíduos de C. oreganus poderiam ter maior tempo de atividade. Isso acarretaria em maior oportunidade para encontrar parceiros para a cópula e, consequentemente, aumento da reprodução e da densidade populacional. Além disso, o aumento na temperatura poderia acarretar em elevação das taxas metabólicas e, por sua vez, aumento no consumo de presas. Porém, a quantidade de presas necessárias para manutenção do metabolismo ficaria em torno do equivalente a um esquilo por ano.


Apesar deste estudo mostrar que o aumento da temperatura é benéfico para C. oreganus, não sabemos como isso afetaria o ecossistema como um todo. Mudanças no ecossistema poderiam prejudicar C. oreganus indiretamente, ao ter efeitos negativos sobre outras espécies, como suas presas. Sendo assim, para entender como mudanças na temperatura podem afetar uma espécie, também é necessário entender o impacto dessas mudanças em sua ecologia e evolução.


Referências


CROWELL, H. L. et al. Thermal ecology and baseline energetic requirements of a large‐bodied ectotherm suggest resilience to climate change. Ecology and Evolution, v. 11, n. 12, p. 8170-8182. 2021.


URBAN, M. C. Accelerating extinction risk from climate change. Science, v. 348, n. 6234, p. 571-57. 2015.


WALTHER, G. et al. Ecological responses to recent climate change. Nature, v. 416, n. 6879, p. 389-395. 2002.

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